Montanhas de Lixo III: Diferentes tipos de montes

A diferença entre países ricos e pobres é quanto dinheiro eles tem para esconder o lixo embaixo do tapete. Os países ricos constróem montanhas diferentes: os aterros sanitários, que são obras de engenharia ou, ainda, incineradores, que queimam os recursos renováveis como se fossem infinitos e ainda podem dispersar partículas cancerígenas no seu entorno, quando há falha no filtro e não há fiscalização frequente para evitar a contaminação. Ao invés de lutar contra o desperdício, eles escondem a sujeira embaixo da terra ou a fazem sumir, com o argumento de que os aterros e outras soluções tecnológicas causam menos danos. Nos países pobres é ainda pior: temos os lixões, onde tudo é disposto a céu aberto. Em alguns lugares, nem coleta é promovida pelo governo local, tudo é disposto nas ruas, rios, matas e, quando não, na sala de casa.

 

Enquanto os lixões são apenas amontoados de restos jogados em cima da terra – com um chorume que polui rios subterrâneos, matéria orgânica atraindo pragas disseminadoras de doenças e vazamentos de gás metano, produzido pela decomposição, eliminado sem nenhum controle na atmosfera – os aterro são um pouco melhores pois impermeabilizam o solo, tampam corretamente o rejeito e queimam ou coletam o metano produzido por chaminés implantadas na terra. Existe uma engenharia para tratamento do solo, água e ar.

 

Nossas montanhas de lixo são resultado de uma desinformação produzida pelo sistema atual com objetivo de promover a “comodidade” do indivíduo. Para “facilitar a vida, confie no sistema”, de forma misturada, emporcalhada e irresponsável. Mas esse procedimento inviabiliza técnica e economicamente o reaproveitamento dos resíduos fazendo com que o descarte e envio para lixões, aterros e incineradores sejam as únicas opções disponíveis. O lixo queimado forma montanhas invisíveis, espalhadas no formato de cinzas e partículas tóxicas pelo ar. Ainda pior, eliminam recursos não renováveis, nos privando dos mesmos no futuro.

 

Essas montanhas de lixo são o exemplo mais vívido de como a nossa sociedade se comporta, como ela descarta (com exceção de parte da comunidade japonesa que tem uma cultura de utilizar as coisas até que não seja possível aproveitar seu material de nenhuma forma).  Nós extraímos, moldamos, vendemos e consumimos sem nos preocuparmos com o destino final: a responsabilidade é sempre do outro, seja o outro uma pessoa, uma empresa ou um governo.

 

Mumbai é a cidade mais populosa da Índia e representa bem o país que cresce economicamente, se destaca cada vez mais na produção de tecnologia e abriga várias fábricas de produtos vendidos no mundo todo. Mumbai também é lar de um dos maiores lixões do mundo. Diariamente entram de 4000 a 7000 toneladas de lixo em Deonar, o mais antigo da cidade. Em janeiro de 2016, o material em decomposição, que está empilhado até 30 metros de altura, pegou fogo e a fumaça cobriu a cidade por dias. Dava para ver o fogo do espaço e um satélite da Nasa conseguiu registrar o incêndio. A vida de milhares de pessoas – além das que trabalham diariamente catando resíduos no meio da nojeira – foram postas em risco por falta de gerenciamento mínimo dos resíduos coletados pelo governo municipal.

 

A Índia é o segundo país mais populoso do mundo e um dos cinco que mais cresce, os BRICS ( sigla em inglês para Brasil, Argentina, Índia, China e África do Sul). O hábito de consumo de sua população está se ocidentalizando, cada vez mais influenciado pela presença de marcas internacionais e do marketing focado em vender grandes quantidades, inclusive de produtos que estão perdendo espaço nos países desenvolvidos como os fast foods (e todas as embalagens desses lanches).

 

Por mais que muitos países desenvolvidos estejam focados em reduzir a produção de lixo, a verdade é que o lixo depositado em lixões ainda é o normal. O Canadá é um exemplo de país desenvolvido economicamente e tecnologicamente, porém ainda manda 2,25 milhões de toneladas de lixo anualmente para o estado de Michigan, nos Estados Unidos. É mais barato mandar sua sujeira para o vizinho que cobra menos do que lidar com o custo de uma gestão eficiente no próprio território. Desta forma continuamos a construir montanhas de lixo mundo afora, algumas mais tecnológicas, outras criminosas. Todas tem impactos econômicos a curto e longo prazo. Todas tem impactos ambientais. Todas tem impactos sociais. Todas afetam pessoas, inclusive nós ou voce.
Não importa se é rico ou pobre, produzimos lixo porque misturamos nossos resíduos em uma grande meleca e nos recusamos a perceber que os recursos são finitos. É necessário que a linha de produção vire um ciclo com início, meio e recomeço. Nada vá para um aterro. Tudo seja reutilizado, reciclado, compostado e, acima de tudo, que nós comecemos a recusar o que é produzido para virar lixo rapidamente, os produtos com a desnecessária obsolescência programada.

Montanhas de Lixo – Parte II: O que está soterrado?

Algumas montanhas de lixo datam de 2050 a. C. Como, por exemplo, os Sambaquis, que na língua tupi quer dizer amontanhado de conchas. São comuns em toda América, no litoral do Oceano Atlântico, com alguns montes em regiões próximas ao Pacífico e até na Europa (em Portugal são chamados de concheiros). Os Sambaquis são um livro aberto para o passado. É possível estudar hábitos do dia a dia de quem vivia em terras brasileiras, por exemplo há mais de quatro mil anos.

Desde sempre acumulamos o que não queremos mais em locais selecionados para desova (para testar, basta você colocar algum resíduo em um ponto específico no seu bairro, por exemplo, logo verá que outros farão o mesmo e o seu montinho de lixo se tornará um pequeno monte). Porém, depois de alguns séculos, a composição da montanha se tornou extremamente perigosa. Das conchas, resto de comida e esqueletos humanos passamos para sofás, computadores e restos de comidas industrializadas. Os lixões cresceram de tamanho exponencialmente e o impacto ambiental desses depósitos também.

Atualmente, usamos um saco plástico, por exemplo, para armazenar o lixo que pode ser composto por um tomate estragado, algumas cascas de banana e laranja, um copo de vidro quebrado, uma lata de refrigerante composta de alumínio, uma caixa de leite vazia tetra pak e uma bandeija de isopor engordurada. Quanto tempo essa sacolinha e seu conteúdo vai ficar soterrada no lixão? Vamos fazer uma conta simples?

Em condições naturais, o tomate demoraria duas semanas pra ser completamente consumido por fungos e virar adubo pro que vier depois. As cascas poderiam demorar um pouco mais. Porém, ao ir para o aterro, esse processo se prolonga por meses. Agora a sacola plástica que envolvia tudo demora de 400 a 1000 anos para se decompor. Se ela for oxibiodegradável, pode ser quebrada em micro-pedacinhos em um ano e meio, porém as partículas finais não são compostas apenas de carbono e sim pigmentos e outros elementos que, pelo tamanho, ficam impossíveis de serem coletados e poluem ainda mais o meio ambiente.

Embalagens tipo tetra pak possuem diferentes camadas em sua composição – 75% papel cartão, 20% filme polietileno e 5% alumínio, tudo muito bem compressado –  o que torna difícil a reciclagem, mas não impossível. Se elas acabarem nos aterros e lixões, o tempo de decomposição fica próximo dos 100 anos.

O  isopor é composto, basicamente, de ar e plástic por isso, ocupa grandes volumes nos aterros sanitários. A estimativa é que sua decomposição demora 150 anos para se completar. Já o vidro demora um milhão de anos para se decompor. A latinha de alumínio demora de 200 a 500 anos para se decompor mas se for reciclada pode retornar ao mercado em até 30 dias. O Brasil é campeão de reciclagem desse tipo no mundo: 97,7% das latinhas retornam como matéria-prima. Num país que não investe em reciclagem, isso só aconteceu porque ficou caro demais extrair alumínio para  indústria. Parece que só mudamos quando nos afeta economicamente.

Em um mundo onde o DEUS mais adorado é o consumo, nossas montanhas são verdadeiras oferendas, pirâmides em sua honra (e desonra da humanidade). Todo aglomerado urbano tem o seu próprio templo. O tamanho é diretamente proporcional à sua população e aos hábitos de consumo. Quem tem dinheiro ainda consegue levar seu lixo para locais pobres que, na falta de melhores acordos comerciais, alugam suas terras para os gestores dos lixões. Quem mora perto paga a conta social e ambiental.

Vale aqui refletir sobre o que diz o professor aposentado de sanemaneto da USP, Samuel Branco: “…quando a atual civilização estiver inteiramente extinta, e os escombros das cidades forem investigados por arqueólogos de alguma civilização terrestre futura, ou, quem sabe, por viajantes de outros planetas, certamente o lixo encontrado causará espanto: suporão tratar-se de uma civilização que se extinguiu pela falta de inteligência.”

Daqui a 1000 anos, quanto do nosso resíduo será escavado?

Montanhas de Lixo – Parte 1: Os Trabalhadores

Se você observar um pedaço da mata atlântica e analisar como vivem as jaguatiricas caçando macacos-prego e pequenos fungos ocupando o tronco de uma embaúba caída que servia de casa para formigas, você vai estar diante de uma comunidade. É um termo utilizado na ecologia que define as interações interpopulacionais (de grupos de seres vivos da mesma espécie) com as intempéries, relevo e outras características do ambiente em que vivem.

Agora troque a mata por um descampado com relevo acidentado. Troque os fungos crescendo em troncos por agentes decompositores e patógenos agindo em restos de comida podre misturado à uma infinitude de objetos como latas de alumínio, sacolas plásticas e eletrônicos de diferentes tipos. Troque as jaguatiricas caçando macacos-prego para se alimentar por famílias inteiras cavucando no meio da nojeira atrás de itens de valor para a indústria da reciclagem (quando ela não tem infraestrutura bem organizada em um país) para garantir o prato de comida no fim do dia. Bem vindo à comunidade do lixão, alguns deles são assustadoramente grandes, porém muito bem estabelecidos em um espaço – o que torna a desativação dos mesmos uma tarefa dificílima para o estado e a comunidade.

Ocupando uma área equivalente a 194 campos de futebol  na capital brasileira, Brasília, o lixão Estrutural é o maior espaço de despejo de lixo sem os devidos cuidados em toda a América Latina. Um dos maiores do mundo. Apesar da meta estabelecida na Política Nacional de Resíduos Sólidos, pelo governo brasileiro, para fechamento dos lixões no Brasil ter sido em agosto de 2014, os mais de 1.36 km2 de área recebem 70 mil toneladas de lixo por mês. Dentre as 1,5 mil pessoas que tiram seu sustento desse ambiente emporcalhado, 124 são crianças, a maioria explora a nojeira sem equipamento de segurança e há famílias que trabalham no local há três gerações.

Do outro lado do mundo, na Ásia, mais de mil crianças trabalham no lixão Stung Meanchey, o único existente na capital do Camboja, Phnom Penh. Elas remexem, ao lado de adultos, montanhas formadas de resíduos majoritariamente orgânicos e decompostos. Um espaço perfeito para proliferação de doenças intestinais, dermatologicas e outras. Enquanto isso, o país africano Gana abriga o maior lixão de e-waste do mundo. Cerca de 600 contêineres repletos de computadores e outros eletrônicos de países como EUA, Alemanha e Holanda embarcam em direção ao porto de Tema, na capital Acra. O motivo desse deslocamento é o preço da reciclagem do e-waste que pode custar um terço do valor em Gana do que na Alemanha. Além da composição de vidro, plástico, borracha e metal, o lixo eletrônico contém metais pesados e outras substâncias tóxicas em seu interior. O chumbo, por exemplo, é usado na solda dos circuitos eletrônicos. Alguns dos efeitos colaterais do contato com ele são danos no sistema nervoso, no sistema circulatório e no sistema endocrinológico.

Os catadores de lixo vivem por todo o mundo. Surgiram da necessidade crescente de resgatar matéria-prima do meio dos resíduos para substituir a extração de recursos cada vez mais escassos na natureza. Os que trabalham nos lixões são de origem humilde e estão na labuta para garantir a própria sobrevivência e a de entes seus queridos.

Uma pessoa que se arrisca dessa forma é uma pessoa muito digna, pois trabalhos nos lixões são informais e não fiscalizados, e esses o fazem, normalmente, por outrem. Uma sociedade que permite e incentiva que adultos e crianças escalem seu rejeitos por uma questão de sobreviência é muito indigna.

Emporcalhamos o mundo.

Nós, seres humanos, produzimos resíduos o tempo todo, assim como qualquer outro ser vivo no planeta. A produção desses é inerente à existência. Produzimos gás carbônico ao respirarmos, dejetos ao nos alimentarmos, e finalmente, ao morrermos, nos tornamos material orgânico ou cinzas. Durante toda nossa vida, produzimos resíduos, simplesmente porque estamos vivos. A maior diferença entre a nossa espécie e as outras 8,7 milhões existentes na Terra (número que esta diminuindo a cada dia devido a nossa ação no planeta) é que, a partir de um certo momento, na história da nossa existência, deixamos de nos encaixar nos ciclos biogeoquímicos (ciclos naturais da terra) e passamos a ser formatados para um encaixe perfeito em um sistema que nos leva a produzir, consumir e descartar com um pensamento linear. Esse comportamento nos é imposto desde a revolução industrial, pela lógica industrial, que hoje é inerente ao nosso pensamento. Isso nos faz “cúmplices” do poder econômico destruidor e deslegitima o poder do cidadão de cobrar mudança – afinal, se eu não cuido, não posso exigir que a indústria o faça. Nosso lixo, é o resultado da disposição irresponsável, as vezes criminosa, dos resíduos proveniente da etapa final de um sistema de produção que exauri fontes de recursos escassos não-renováveis e joga fora produtos com a maior frequência possível para abrir mais espaço para o consumo. Os depósitos finais, como aterros sanitários e lixões, estão cada vez mais cheios e os descartes irregulares ainda são frequentes. Além disso, a composição do nosso rejeito contém elementos tóxicos e/ou impossíveis de serem decompostos por agentes naturais. O resultado desse estilo de vida é que não há nenhum ambiente no planeta que não tenha sentido a presença humana e, consequentemente, não esteja minimamente poluído.

Historicamente, boa parte dos dejetos humanos acabaram enterrados ou descartados em mares e rios, criando grandes depósitos que registraram o comportamento da raça humana através dos séculos. Com esse resíduo é possível estudar tipos de alimentação, a evolução do comércio e como as comunidades anteriores se organizavam socialmente – arqueólogos e historiadores lêem as palavras compostas por cerâmicas, restos de alimentos, corpos enterrados e armas feitas de ossos. O que será que vão pensar da nossa sociedade contemporânea no futuro ao analisarem nossos lixões? Enquanto nossos antepassados viviam de coleta, caça e pesca, nós vivemos de consumo e descarte.

A natureza não conseguiu decompor nem o nosso lixo de cinco séculos atrás. Imagine o tempo que vai demorar para decompor tudo que veio após o século XVII com a revolução industrial e a evolução de um maquinário focado em atender as necessidades crescentes de uma população que aumentava vertiginosamente. Atingimos a marca de sete bilhões de humanos habitando o único mundo conhecido atualmente pela ciência com condições para sobrevivermos. Criamos bens de consumo e serviços a partir de uma cultura em que “tudo tem seu prazo”, e este fica cada vez menor conforme uma nova geração de produtos é lançada. Jogamos fora um celular com um ano de duração, descartamos nossos empregados a qualquer sinal de desequilíbrio financeiro e programamos relacionamentos amorosos para acabar logo.

Quem mexe na meleca

Ninguém quer mexer em lixo (aquela cesta cheia de resíduos misturados). Ele fede, se decompõe e atrai pragas e doenças. Mas ainda assim, existe um exército de miseráveis que vive da coleta e destinação do que a sociedade rejeita. São garis, catadores de lixos e recicladores que trabalham em empregos informais ou ganhando muito pouco por um serviço que deveria ser considerado um benefício a saúde pública. Além disso há uma falta de equipamento de segurança adequada disponível para essa população.

Bangladesh, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é o quarto país mais poluído do mundo. Sua capital, Dhaka, possui um grande lixão onde crianças e adultos catam qualquer material reciclável em meio a muito lixo orgânico apodrecendo a céu aberto – são 15000 toneladas de melecas descartadas no local diariamente. Esse serviço que os faz arriscar a vida é recompensado por R$ 4,00 por dia2. Mas esta situação não é exclusiva da Ásia. Ou mesmo na Africa. É presente nas Americas (inclusive na do norte), na Europa ou Oceania. Todos produzimos lixo e delegamos a sua destinação e tratamento aos menos afortunados, quase uma casta tal qual define-se na Índia: os intocáveis.

Só que não adianta mais empurrar o serviço sujo para outras pessoas em situação de risco social. Não existe local no planeta sem lixo e as consequências desse desastre ambiental vão atingir a todos nós. Nossa existência é um barco a afundar e há botes salva-vidas para poucos (você assistiu Titanic?) e, talvez, nem os que saírem a deriva pelo Universo vão achar um novo lar. A não ser que mudemos radicalmente a rota que estamos seguindo. Precisamos de pessoas conscientes no controle do timão,  líderes virtuosos que prefiram o bem maior aos interesses pessoais.

Nossa terra virou um grande depósito

O uso de materiais que a natureza não consegue decompor, como o plástico e o vidro, são verdadeiras rochas que levantam montanhas de lixo pelo mundo. Os cinquenta maiores lixões da humanidade estão localizados em países africanos, latino-americanos, caribenhos e no norte da Ásia3. Nesses mesmos territórios estão concentrados ⅔ da população mundial e os países menos desenvolvidos. Estranhamente, essas são as mesmas nacionalidades que somam o menor consumo per-capta. Se elas não consome, da onde vem tanto descarte? A proximidade da pobreza com a sujeira formam uma receita perfeita para o aumento das enfermidades decorrentes da exposição aos materiais tóxicos e animais vetores de doenças. O resultado é um alto número de males intestinais, epitópicos, cancerígenos e, até, anomalias genéticas. Os locais mais carentes do planeta também acabam sendo depósitos de resíduos das nações mais ricas. Isso só acontece porque a solução atual para a destinação final dos rejeitos está relacionada diretamente com a quantidade de dinheiro que você tem para esconder sujeira debaixo do tapete.

Conseguimos! Emporcalhamos o mundo

Nem as montanhas mais altas do planeta escapam da imundíce humana. O Monte Everest, pico mais alto do mundo, era considerado um dos locais mais isolados do planeta. Seu topo foi conquistado apenas em 1953 e, num curto período de 60 anos, emporcalhamos suas encostas. Como é muito frio, dejetos humanos orgânicos e corpos de alpinistas que faleceram tentando escalar até o topo não são decompostos. Além disso, cresce a cada ano a quantidade de lixo inorgânico no entorno dos acampamentos e das rotas do “teto do mundo”: montanhistas vão embora e deixam cilindros de oxigênio, restos de barracas, cordas e pregos.

Uma sopa de plástico

Durante a evolução da humanidade, as cidades acabaram se desenvolvendo geralmente em encostas litorâneas. Eram rios, lagos e mares que supriam a necessidade de água para beber, de caminhos para viajar, de fontes para irrigar plantanções e que transportavam o lixo e o esgoto para longe desses centros urbanos com suas correntes. Algumas cidades, como a brasileira Paraty, foram projetadas para utilizar a água do mar na limpeza pública. As ruas do centro histórico ficam inundadas durante as marés cheias e por isso, atualmente, há uma preocupação grande em não descartar lixo nas vielas da cidade. Os canais holandeses também eram considerados uma forma de de gestão de descarte eficiente e por isso eram extremamente poluídos até uma mudança na gestão política focar na limpeza dos rios.

Atualmente não se planeja mais a construção de cidades com essa estratégia para a gestão dos resíduos sólidos, porém muito lixo continua sendo levado pela água das chuvas para os rios e, consequentemente, para o mar. Somente em 2010, oito milhões de toneladas de plástico chegaram aos oceanos e a previsão para 2015 é que esse número aumente para 9,1 milhões. O plástico não se decompõe mas, com o sol e a força das ondas, se quebra em mini-pedacinhos que acabam no fundo dos oceanos, dentro de animais marinhos, inclusive nos microorganismos ou flutuando em sopas gigantescas de microplástico concentradas pelo movimento das correntes.

Esse mesmo plástico que está espalhado pelos oceanos é indissolúvel e atrai outras substâncias hidrofóbicas existentes nos mares pelo uso em excesso de agrotóxicos, fertilizantes e medicamentos. São os POPs (sigla em inglês para Poluentes Orgânicos Persistentes) e eles estão ligados à doenças como câncer, má-formação em recém-nascidos e baixa contagem de espermatozoides. O impacto é maior nos níveis tróficos mais altos da cadeia alimentar, em animais que se alimentam de outros animais – dentre eles, os humanos. A contaminação de plástico dentro de pequenos seres vivos no oceano é tão grande que estamos começando a influenciar negativamente a reprodução das seres como baleias, tartarugas, diversas especies de peixes, e de pessoas, com o plástico contaminado.

Além do plástico que se quebra, existem os microplásticos que já são produzidos nesse tamanho tão pequeno, muito utilizados em produtos hidratantes e esfoliantes na indústria de cosméticos. Eles variam de 0,004 a 1,24 milímetros e não são capturados nas estações de esgoto após descerem pelo ralos das pias e banheiros no mundo todo. No litoral de São Paulo, no Brasil, o programa “Lixo nos Mares”, do Laboratório de Manejo, Ecologia e Conservação Marinha do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) encontrou esses milimétricos pedaços dentro de animais invertebrados da fauna marinha.

Queimar não fez desaparecer

Na tentativa de dar um fim ao lixo, o ser humano criou técnicas cada vez mais aperfeiçoadas em queimar os seus rejeitos. O que antes era uma fogueira simples no quintal evoluiu para grandes incineradores industriais utilizados em larga escala pelo mundo. É importante ressaltar que essa é uma saída rápida para o volume crescente de lixo. As cinzas que sobram ainda precisam ser enterradas e as que flutuam, filtradas ou serão lançadas ao ar e carregadas pelas correntes de vento. O filtro é tão importante que é a parte mais cara de um incinerador, afinal, não é só porque um resíduo tóxico foi queimado que ele deixou de ser poluente e perigoso.


Resíduos tóxicos produzidos nos incineradores são similares aos utilizados como arma química  na Guerra do Vietnã, que acabou há 40 anos. Os cidadãos do país ainda sofrem com as consequências do lançamento do agente laranja em suas florestas, químico utilizado para desfolhar as árvores e destruir a proteção natural utilizada pela guerrilha local revelando seus acampamentos. Em 2013, a Cruz Vermelha contabilizou 150 mil casos de crianças que nasceram com mal formação congênita como consequência direta da pulverização do agente laranja pelos americanos no país.

Embora o uso do filtro seja uma exigência legal, há um custo exorbitante na operação de retirar as dioxinas e seus semelhantes da fumaça dos incineradores. Você acredita que, se esse falhar, será trocado imediatamente? Talvez na europa (apesar de termos evidencia de displicência nesse continente). E na África? E na Ásia? Na América Latina? Lembrando que não importa quão rico você é ou o quão alto são seus muros, o ar é o mesmo para todos.

Na Colômbia, um agente químico semelhante ao Agente laranja é usado com o pretexto de vencer a luta contra as drogas. Aviões sobrevoam plantações ilegais e destroem as plantações de coca, levando junto a qualidade do solo, da água e adoecendo agricultores que utilizam esse subsídio como uma forma de sobrevivência em um país com muita desigualdade social. O primeiro efeito colateral é a perda de cabelos do corpo, além disso crescem os casos de câncer entre os camponeses do país. Os químicos desses venenos, das armas químicas e das fumaças dos incineradores se acumula em maiores quantidades, a cada geração, no corpo humano.

O espaço, a última fronteira emporcalhada

Mais de 300 000 pedaços de detritos com mais de 1 cm de diâmetro estão viajando em volta do planeta. São satélites desativados, pedaços de naves e partículas de combustível viajando em diferentes rotas e em alta velocidade. Se os objetos estivessem parados ou trafegando lentamente eles cairiam e, como a maioria é pequena, se desintegraria na atmosfera terrestre. Mas não é isso que acontece.

Na parte mais baixa da órbita terrestre (que vai de 160 km a 2000 km de altitude), os detritos chegam a viajar a mais de 25700 km/h. Até mesmo os menores deles podem causar um estrago enorme se houver colisões com algum satélite ou com uma estação espacial. E é exatamente nesta parte da atmosfera que circulam boa parte dos satélites de comunicação – especialmente os que ficam localizados fixamente em cima de determinada região.

A exploração espacial começou na década de 50 com o lançamento do satélite Sputnik 1, da extinta União Soviética. Então todos os detritos foram lançados no espaço em menos de um século. A NASA tem que deslocar recursos e tempo para monitorar pelo menos 19 000 deles (os maiores que uma bola de softball). Da terra é possível prever as rotas dos detritos e avisar aos operadores de satélites e, principalmente, as tripulações das estações espaciais qual desvio tomar. Mesmo assim, acidentes acontecem. Colisões entre pedaços de naves liberam milhares de detritos e, cada vez mais, tornam cara a operação de manter satélites em volta da terra.

Como viver num mundo emporcalhado

Existe uma consequência bem profunda da nossa cultura de descarte. O ser humano pode tentar se isolar o quanto quiser do mundo a sua volta mas ainda assim será infectado de alguma forma, passando a portar no próprio corpo, crescentes quantidades de toxinas pois precisamos de recursos para sobreviver. Emporcalhamos a nós mesmos ao sujarmos nossas fontes de ar, comida, água, moradia e tantas outras substâncias utilizadas por nós.

Emporcalhamos o físico e o espiritual. Na tentativa de sair de uma crise provocada pela Quebra da Bolsa de Nova Iorque e duas Guerras Mundiais, o ser humano passou a valorizar o Ter e não o Ser. O sonho americano de uma casa, um carro, uma família, vários eletrodomésticos e eletrônicos foi incrementado pelo consumo individual de marcas de roupas, gadgets e cosméticos que passaram a ser cada vez mais valorizados. Independente do impacto que isso cause. Num mundo globalizado, as pessoas não estão preocupadas se a blusa da grife da vez foi costurada por um trabalhador bem pago ou numa fábrica de suor na Índia.

A raça humana consumiu tudo que podia e jogou fora aquilo que não mais interessava. Agora vem a era das consequências da cultura do descarte que foi cultivada até então. Não são apenas os nossos netos que sofrerão as consequências ambientais e sociais. Nós já estamos sofrendo. Na análise de uma saída para a situação atual, vale refletir o que Ghandi dizia “nós temos tudo para nossas necessidades, mas não tudo para nossa ganância”.

Fazei-me um instrumento

Quando eu era criança considerava São Francisco de Assis um dos meus ídolos e no meu imaginário ele não era um santo, era um herói – tal qual os personagens dos quadrinhos que lia e filmes que assistia.

Minha admiração por ele era tanta, que algumas de minhas aventuras foi soltar os passarinhos das gaiolas dos vizinhos que os prendiam. Minhas primeiras ações ativistas a favor do meio ambiente, pró-vida e pela liberdade. São Francisco foi um revolucionário como Gandhi, Buda e Jesus. Uma andorinha que fez verão. E que verão ele fez.

Daí vem meu apreço pelo Papa Francisco, que além de jesuíta, é franciscano. Os jesuítas são formadores de redes. O Papa está construindo uma rede ambientalista muito forte entre os seguidores, não só do cristianismo, mas de todas as religiões, além de pensadores de linhas políticas, filosóficas e sociais diversas. Seu objetivo é garantir a sobrevivência da humanidade promovendo o cuidar de um bem comum: a nossa terra.

Inspirado em São Francisco de Assis, o Papa promove a inclusão, a harmonia e a paz, lançando a encíclica verde Laudato Si. Ela vem para renovar a força dos movimentos ambientais, trazendo a esperança em um tempo de crise. “Onde houver trevas, que eu leve a fé.”

“Louvada seja a Terra” ou “a nossa casa”. Assim começa a obra do Papa Francisco que coloca no mesmo patamar dos outros pecados, como matar e roubar, a agressão a natureza. E convenhamos, quando usamos mais do que a parte que nos convém dos recursos naturais, não estamos roubando matéria-prima essencial para que outras espécies vivam nesse planeta? Quando nosso lixo eletrônico é enviado para o outro lado do mundo, encontrando como destino final um lixão a céu aberto em Ghana, onde a fumaça dos fios queimados e os materiais tóxicos dos processadores e placas-mãe matam aos poucos milhares de pessoas, não é nossa responsabilidade?

O Laudato Si não deixa de fora o papel do governo e das indústrias na destruição do único local conhecido no universo adaptável para a vida humana, pois é um pedido de ação universal que tem que começar agora. Na verdade, já estamos atrasados.

Não creio que iremos ser todos simples como os franciscanos, mas podemos reduzir drasticamente o desperdício e distribuir mais igualitariamente nossas riquezas. E eu não falo de ouro ou outros minérios, eu falo da água, da terra, do ar e dos alimentos. Riquezas sem as quais é impossível viver e que todos devem ter acesso garantido como direito inalienável.

“Lanço um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas, dizem respeito e têm impacto sobre todos nós”. Acho que essa frase também representa o meu desejo com o meu trabalho. Estou aqui para informar e auxiliar os que estão no caminho rumo ao lixo zero.

Ser lixo zero é uma forma de viver mais eticamente, com consciência sobre os impactos do seu consumo no mundo. Deve-se reduzir, reusar, reciclar, e compostar – devolvendo à terra o que ela lhe proveu – produzindo nada de lixo e o mínimo possível de resíduos. Além disso, você assume as consequências das suas escolhas. Ser lixo zero é planejar todos os momentos da sua vida, refletindo sobre o próximo passo a tomar para gerar menos impacto ambiental no planeta, garantindo o bem estar das futuras gerações.

Ao visitar o Rio de janeiro, o Papa conclamou aos jovens: “Sejam Revolucionários!”. Acreditem quando eu digo que não há nada mais revolucionário que SER LIXO ZERO hoje em dia. É ir contra a lógica reinante, capitalista, que coloca o consumo acima de tudo e santifica a cultura do descarte.

Então eu estendo o convite de Francisco: SEJA REVOLUCIONÁRIO, SEJA LIXO ZERO.

Tal qual a oração de São Francisco pede a Deus “fazei-me um instrumento de vossa paz”, eu acredito que o chamado do Papa Francisco convida para que nos tornemos instrumentos de mudança, focados na construção de uma comunidade solidária, baseada na virtude, gerando impactos positivos e prósperos em harmonia com a natureza, com o universo.